“Selva”

“Selva”

Sobrados arranham-céus geminados
Ruas atravessam vielas
Bairro vão à barro
Quando a taipa dá lugar ao concreto
Sem teto, chove na cidade
Que impermeável
Não sente o gosto de suas próprias lágrimas
O cheiro é forte
E não agrada, da Sul à Norte
Das varandas gourmet
Avistam-se os que não tem que comer
E o rastro de sangue nas bordas
Do croissant no seu brunch
Se confunde aos faróis na hora do rush
Que vermelhos denunciam o fim
Os rios, com pouca força
Envergonhados dos que passam por cima diariamente e fingem não o ver
Vomitam o lixo.
Enquanto ao lado, fogos de artifício
Comemoram mais segregação
Quatro vagas na garagem
E o coração vago
Um indivíduo dentro de cada carro
Reclama do trânsito que ele mesmo faz parte
E a vida passa, com ou sem arte, Regurgita.
Se renova e se agita
Esperneia e estremece
Não escolhe as roupas que lhe veste
Nem os adornos que não adora
O barulho que não cessa
É o grito dos que tem pressa
Por mudanças em seu habitat
São Paulo, eu te amo.
Mas como é difícil te amar.

Gabriel Kieling

f: autor desconhecido