“Pedaços”

“Pedaços”

Que será que será mesmo o conhecer?
Que energia é essa toda que nos envolve?
E nos dissolve
Enche o peito
E esvazia o relento
Sopra o amor ao vento
Da angústia ao acaso
Pra que paz
Quando se tem asas
Pra que voar quando se quer terra
Pra que
Pra que o outro?
Sozinho não damos conta de ser?
A troca existe pra que não exista sofrer?
O ápice é diário mas onde queremos chegar?
Quais são os parâmetros?
Não importam mais as distâncias
Nem os raios nem os diâmetros
Tudo é novo
Do bom dia ao gozo
E tudo que aprendemos se esvai
Bagunça tudo
Todo
Tudo
Tudo de novo
Será mesmo que não tenho mais medos?
Que guardará meus segredos?
Amargos abraços
Doces beijos
Desejos
Infinitos de nós
Entrelaçados
Entre laçadas
Pernas
Entre em mim
More aqui dentro
Cavouque bem talvez chegue ao centro
E quando chegar
Arranca um pedaço
Que é pra dor se fazer lembrar
Que é pra ele contigo levar
Por onde andar
Os olhos
Por onde voar os pés
Que o mar que hoje transborda
Acorda
O profundo rio que queima em revés
Que a canoa que passa estanca
O nó que na garganta
Travara eu te amos
Que a paixão
Me faz mesmo um sem chão
Mas pra que mesmo colchão
Se durmo nas ruas e me sinto
No céu
Se calo ao verte nua
Ou se grito ao léu
Se transbordo
Se ardo por dentro e por fora
Se a mim não demora
Morar no mundo
Vem amor
Me deixa ir fundo
Achar seu centro
Morder seu pedaço
Vem sem medo
Enquanto lambo os dedos
E me desfaço
A vida é mesmo maluca
Ora me aperta o peito
Ora me morde a nuca
A vida é mesmo imprevisível
Ora me aparece plana
Ora cheia de desnível
Mas pra tranquilidade
Não vivo mesmo
Na mesmice dos mortais
Na idiotice dos casais
Que a morte sirva de consolo
Para seus dias sem sono
Pros teus medos banais
Que pros nossos desejos carnais
não há qualquer traço
No centro de nós pulsa viver
E só nele
nossos juntos
Pedaços

Gabriel Kieling