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Exposição | “Identidade”

Exposição | “Identidade”

RELEASE

Vivemos tempos difíceis. A política do capital avança sobre nossos corpos, memórias e territórios. Nas cidades, o individualismo e o egoísmo se fortalecem e demarcam ao mesmo tempo a crise da solidão. Nos afastamos dos outros e simultaneamente de nós mesmos. Insistem em nos considerar isoladamente de nossa comunidade e de nossa história, como um ser indivisível, concreto, automatizado.
(Re)conectar-nos se torna um desafio e uma tarefa necessária para a continuidade da vida vivível e para o mundo que queremos. Quando em desconexão, a natureza é utilizada como recurso explorável e os próprios seres humanos assim também se tornam. A verdade é que ambos somos finitos. A tentativa de nos fazer esquecer é a maior estratégia contra nós. Portanto, a sagacidade de nos fazer relembrar se torna uma das potências da arte em nosso tempo.

A exposição IDENTIDADE, substantivo feminino, ao mesmo tempo que qualifica o que é idêntico entre nós, sem oposição, nos reconhece pelo que é singular. Em busca de ser o que realmente somos, caminhar diário e eterno, seguimos nos encontramos e nos perdemos nos outros e sendo-nos em profundidade.

A arte crava fissuras nos cotidianos e nos relembra de que somos para além do que nos é dado. Somos mais, somos cosmos(universo) e sagrado é tudo aquilo cheio de sentido. Nos encontramos quando somos nossos ancestrais, somos natureza, um grão de areia, caminhos e histórias que desenhamos e nos desenham.

Assim, é Gabriel Kieling, aprendiz eterno, rascunho sendo feito, de dentro pra fora de fora pra dentro. Muda de uma geração de sementes crioulas, que brota a criatividade e segue reinventando a roda da vida. Para esta exposição trás em si memórias e vivências, histórias das avós, mestres griôs e sonhos. Caminhos traçados entre comunidades tradicionais e espaços de resistência pelo Brasil e América Latina.

Raissa Capasso

“De dentro pra fora, de fora pra dentro”

Sou rascunho
Sendo feito
De dentro pra fora
De fora pra dentro

Traçado a sangue
Que não se apaga
Pintado à barro
de mangue e beira d’água

De uma geração de sementes crioulas
Sou muda
Buraco cavado à mão
Crescendo a cada chuva

Sou fruto de carne doce
Caído no terceiro vento
Colhido de galho em galho
Chupado na boca do tempo

Sou aprendiz eterno.
Reverencio Mestres Griôs
Mais que homens de terno
À tradição oral
Mais que caderno

Sou filho dos ventos
que vem do sul
E faz chover no sudeste
Nome de anjo
composto de dois santo
E um bocado de prece

Meio cavalo, meio índio
Com asa e sem cela
Que observa tudo e no céu espera…
Que voa pelas noites de lua
Sou elo entre as estrelas
Refletidas sobre a pele nua

Sou tudo e sou nada
Pequeno feito um grão
Sou fogo com fogo
Com um tal de dragão

Vindo presse mundo
Sentado e antes da hora
Tenho pressa pra viver
Meditando a natureza lá fora.

Guiado pelo sentir
Sonhando ao lado dela
Sigo desenhando a vida
e sendo desenhado por ela
Não sei dos amanhãs
Mas é amando que sigo a sua espera

Gabriel Kieling