“De dentro pra fora, de fora pra dentro”

“De dentro pra fora, de fora pra dentro”

Sou rascunho
Sendo feito
De dentro pra fora
De fora pra dentro

Traçado a sangue
Que não se apaga
Pintado à barro
de mangue e beira d’água

De uma geração de sementes crioulas
Sou muda
Buraco cavado à mão
Crescendo a cada chuva

Sou fruto de carne doce
Caído no terceiro vento
Colhido de galho em galho
Chupado na boca do tempo

Sou aprendiz eterno.
Reverencio Mestres Griôs
Mais que homens de terno
À tradição oral
Mais que caderno

Sou filho dos ventos que vem do sul
E faz chover no sudeste
Nome de anjo composto de dois santo
E um bocado de prece

Meio cavalo, meio índio
Com asa e se cela
Que observa tudo e no céu espera…
Que voa pelas noites de lua
Sou elo entre as estrelas
Refletidas sobre a pele nua

Sou tudo e sou nada
Pequeno feito um grão
Sou fogo com fogo
Com um tal de dragão

Vindo presse mundo
Sentado e antes da hora
Tenho pressa pra viver
Meditando a natureza lá fora.

Guiado pelo sentir
Sonhando ao lado dela
Sigo desenhando a vida
e sendo desenhado por ela
Não sei dos amanhãs
Mas é amando que sigo a sua espera

Gabriel Kieling